Reflexões Existenciais

No meio do tempo comum, o extraordinário acontece.

Penso que nós, humanos, temos tendência de querer sempre o extraordinário pelo extraordinário. E nos esquecemos que “no meio do tempo comum (chronós), o momento extraordinário (kairós) acontece”. Todo final de ano, observe-se as pessoas fazendo novas promessas, mas, ao “passar do tempo”, dentro do novo ano, observa-se que os velhos hábitos se repetem. Então o “tempo” sempre será o mesmo, o ano será o mesmo para estas pessoas.

Parece-me que as pessoas querem, na virada de ano, o extraordinário pelo extraordinário, e, com base neste comportamento, fazem as suas promessas. Falando de crentes, me parece que a velha promessa é aquela de sempre: “serei mais fiel”. Não creio em “ser mais” fiel! Creio apenas em ser fiel. E fidelidade não “nasce” na virada do ano. Fidelidade de constrói no tempo da vivência.

Tu podes me perguntar: e tu não queres coisas extraordinárias? É claro que eu quero e busco coisas extraordinárias, mas não busco o extraordinário pelo o extraordinário, mas, pela construção no meu tempo de vivência. Uma coisa extraordinário estou a VIVER, e, se Jesus não voltar no seu tempo, em 2014, 2019, 2025, o meu chronós, o fragmento do meu tempo extraordinário (kairós) acontecerá: a conclusão do meu mestrado em psicologia. É assim que vejo o extraordinário: a construção da nossa vivência. Os pastores, nas campinas, estavam vivendo o tempo comum de seres pastores, mas, para Deus é tempo extraordinário de anunciar a vinda do Salvador.

Quero fazer-te um desafio em forma de pedido: não faça nenhuma promessa na virada do ano. Sabes por que? Porque o tempo da virada – de 2019 para 2020, por exemplo – é apenas uma invenção social para que possamos nos situar em termos de compromisso e locomoção. É uma bela invenção, e já podemos viver sem este tempo. Mas, em termos existenciais o chronos é apenas centelha do kairós. Ninguém vai ver e nem sentir a “passagem de ano”, o que percebemos são as nossas reações sociais, dentro do chronos, que chamamos de “ano novo”. Sabe que “a percepção humana alcança o seu limite perto da milésima parte de segundo. O ouvido já não consegue captar um som emitido 2 milésimos de segundo depois de outro. Assim, uma sucessão de apitos com esse intervalo parece um único apito contínuo”. O tempo é um ato contínuo em torno de si mesmo!

Bem, fica uma questão: se conseguires perceber o attosegundo da virado do “ano novo”, podes fazer promessas. Mas, lembra-te que “o attosegundo é uma unidade de tempo mil vezes menor que o femtossegundo e mil quatrilhões de vezes menor que 1 segundo. É um instante tão fantasticamente breve que durante ele a luz percorre apenas a irrisória distância equivalente a três átomos de hidrogênio enfileirados (para formar 1 centímetro é preciso enfileirar 100 milhões de átomos iguais a esse). No mundo velocíssimo do interior dos átomos, o tempo se torna mera sombra do segundo. O tempo de 10-23 segundos, por exemplo, é 100 milhões de quatrilhões de vezes menor que o segundo. É quanto a luz demora para percorrer uma distância igual ao diâmetro de um próton, uma partícula 100 mil vezes menor que o átomo de hidrogênio”.

É neste tempo que nos encontramos: no tempo da eternidade. O tempo é! Apenas é! Eis a xis da questão: ser! Como ser fiel no ano novo, se és infiel em essência? Não haverá promessa que se cumpra! Por isto, não faça nenhuma promessa, procure desenvolver uma vivência. Viva um dia por vez, e terás construído uma história, mas se tentares fazer história num dia, verás que não viveste, apenas passastes.

Feliz tempo 2021 para todos.

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