Reflexões Existenciais,  Textos

Sonhar Contigo

Hoje acordei pensando fortemente em sonhos, talvez pelo fato de ter esquecido os sonhos da noite, mesmo sabendo que os tive. E que de alguma forma me falavam de presença, de pessoas. E escrever agora sobre eles, talvez seja uma compensação insciente, na tentativa de recuperá-los. Então, pensei, e nem sei se ainda sonho, mesmo estando consciente que estou diante do computador e digito este texto, em dizer alguma coisa obre sonhos.

Ora, se sonhos são restos diurnos e expressão de um desejo inconsciente, devo pensar, então, que o sonho não é um fenômeno por si só; sendo resto diurno e expressão de um desejo inconsciente, ele, pois, se constrói a partir de presença; presença não como configuração espaço-temporal, muito mais que a pre-sença fenomenológica do ente-eu, mas pre-essencia do ente-tu, que é a única capaz de fazer revelar o ente-eu.

Sou um ente auto-analisável, como pensa Heidegger. Mas, esta possibilidade do ente se comportar com o seu ser só é possível porque ele tem no ser do outro o olhar, querendo ou não, da existência. Desta forma a essência do ente – este ente-eu – está em ter de ser, conforme Heidegger; pois este ente só se concebe como tal na medida em que pode falar de si, portanto, de sua existência, e o sentido deste ser em existência faz sentido quando fala com o outro, para o outro e no outro. A “ ‘essencia’ da pre-sença está em sua existência”, ou seja, sempre apreendendo a presença como sendo minha. Sim, mas esta apreensão da minha presença, que está na sua essência, só me possível porque existe e-essência, ou seja, a presença de outro.

Assim, penso que a auto-análise seja um sonho que nos faz acordar solitários; e, portanto, a análise, numa ação transferencial de e-essencia, seja um sonho do qual comungo, pois dele posso livremente falar, sem que me seja imposta pre-interpretações e condições de existir. Assim, existo pela condição potencial de ser um ser de linguagem. Sonhar é falar; alias, sonhar é dizer. Se sonho sozinho, choro; se sonho no outro na essência da existência, sou possível; portanto, suportável, realizável. Sou fala, sou dizer, sou discurso.

Bem, é isto, esta noite sonhei, e espero, de alguma forma, encontrá-lo, pois não sei por que ele se perdeu; mas o ser deste ente se realiza pois dele pode falar; fala na escrita, construindo uma escritura de Si. E desta forma o sonhar permanece aberto.

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