Educação,  Textos

Educando em Comunhão

A frase-tópico “os homens também se educam em comunhão”[1], de Paulo Freire, no que diz respeito à essência episteme(epist´hme) do termo comunhão, divulgado, burilado e revestido de uma linguagem educacional pelo aclamado (pela esquerda) professor, pertence ao cristianismo do primeiro século da nossa era. A igreja primitiva cresceu sob a égide da “doutrina dos apóstolos, da comunhão, do partir do pão e das orações” (At.2:42).

A palavra comunhão, vem do grego koinonia (koinonia), é derivado de koinê (koinh) que significa comum. Comum, neste caso da relação com koinonia, significa “pertencente a todos ou a muitos”. Veja que coisa linda, é a composição da palavra comum: com-um. Ou seja, é sempre alguém com alguém, nunca só. Educar em comunhão é educar com a presença do outro. Não há lugar para o egoísmo, para o estrelismo exacerbado. Educar em comunhão é educar com doação, pois este é o sentido da palavra comunhão para o cristianismo do primeiro século da nossa era. Doação, uma palavra que produz efeitos maravilhosos. E se há um segmento na sociedade que precisa de efeitos, e efeitos concretos, este é a educação.

No Projeto Político Pedagógico, de qualquer curso, jamais pode faltar a visão de uma educação em comunhão, até porque falamos muito em COMUNITÁRIO, COMUNIDADE, sem necessariamente, refletirmos sobre a semanticidade, a semiótica do termo. Comunidade: comum-cidade. A nossa escola deve ser uma cidade, ou seja, um lugar onde as coisas possam tornar-se comuns, (não pela banalidade, pois não é esta a semântica), sobretudo, na sua relação existencial-ontológica. Deve ser um lugar comum com realidade prática e de soluções da fluência das cousas nas realizações. O que é uma cidade? É um lugar de tudo e de todos. Não há educação, se não houver a concepção do espaço escolar como sendo um lugar de tudo e todos, no desejo de encontros. Assim, cidade é um lugar de movimentos e vozes. Não existe comunhão no estático, só existe comum no dinâmico, ou seja, no movimento e no som. Rousseau diz:

As cores são o adorno dos seres inanimados, toda a matéria é colorida, mas os sons anunciam o movimento, e a voz, um ser sensível. Só os corpos animados cantam[2].

Educar em comunhão é educar por música. Educar é vocalizar o ser. O mestre conquista o seu pupilo, não pelo seu conhecimento, isto ele pode conseguir só com os livros. Mestre conquista pela voz. Cristo, falando da conquista dos seus discípulos, usando a parábola do bom pastor diz que a ovelha conhece a voz do pastor (João 10:4). Desta forma, o discípulo conhece a voz do mestre. Educar é um processo de relacionamento. Este relacionamento “é interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, incomodar os acomodados”[3]. Rousseau diz que logo que os sinais vocais atingem os ouvidos, “anunciam um ser semelhante” a nós (ROUSSEAU, 1999). Ele arremata: “Os pássaros trinam, somente o homem canta. E não se pode ouvir canto ou sinfonia sem se dizer imediatamente: ‘um outro ser sensível’ está aqui’” (op.cit:321). Por que um professor ama um aluno? Rubem Alves diz que “a gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito”[4]. Um professor não é professor porque tem conhecimento ou sabe usar a fala, mas porque tem alunos que sabem ouvir bonito. Ouvir bonito não significa silêncio. Significa a simbiose das vozes retumbantes dos gozos da comunhão, pois, “amamos uma pessoa porque a sua imagem se insere na cena de felicidade que havia na memória ‘antes de haver o mundo’”[5]. No princípio era a Palavra[6]. A comunhão do ato de educar está na palavra.

Educar em comunhão! Quando isto acontece, as coisas se revestem de beleza. E assim sendo, a fome de beleza e afeto será saciada. A fome de beleza e de afeto não se revela em números. Traduz-se na indiferença social, no preconceito, no individualismo, na violência física e simbólica, na apartação social, na falta de acesso aos direitos humanos, econômicos, sociais e culturais. Concordamos com o poeta quando diz: “ainda é de pão a fome que abate o homem, quando é maior a fome de abraços“. (Fred Maia ). Rubem Alves diz que um “professor que só pensa no cumprimento do programa, todos os seus alunos são objetos”[7]. Não alimentamos objetos, alimentamos pessoas. Educar em comunhão é alimentar. Falando da educação como comida, Rubem Alves (2004:82. 5 ed) diz:

A aula é como comida. O professor é o cozinheiro. O aluno é quem vai comer. Se a criança se recusa a comer pode haver duas explicações. Primeiro: a criança está doente. A doença tira a fome. Quando se obriga a criança a comer quando ela está sem fome, há sempre o perigo de que ela vomite o que comeu e acabe por odiar o ato de comer. É assim que muitas crianças acabam por odiar as escolas. O vômito está para o ato de comer como o esquecimento está para o ato de aprender. O esquecimento é uma recusa inteligente da inteligência. Segunda: a comida não é a comida que a criança deseja comer: nabo ralado, jiló cozido,salada de espinafre… O corpo é um sábio. Etimologicamente a palavra sábio quer dizer ‘eu degusto’. O corpo não é um porco que come tudo que jogam para ele, com se tudo fosse igual.

Educar em comunhão é ler o ser na sua dimensão de pessoa. Trazendo a dimensão do “ser pessoa” para refletir a concepção de cidadania – viver na cidade[8] -, recorremos a Norbert Elias: “os seres humanos individuais ligam-se uns aos outros numa pluralidade, isto é, numa sociedade[9].(ELIAS,1994:9). Não existe uma forma alternativa para os indivíduos manifestarem esta essência, senão diante ou com outro indivíduo igual a ele, assim sendo, em sociedade.

Nesta ótica, é necessário que todo Projeto Político Pedagógico seja concebido tendo a visão de cooperar na formação da cidadania, da humanização e da equidade. Vislumbramos também a necessidade de estimular os caminhos do aprendizado em relação à arte e outros processos criativos, incentivando a diversidade de olhares na percepção do universo social/existencial. Isto é comunhão. Assim, Convivência Social e Produção de Conhecimento constituem-se em elementos interligados para o desenvolvimento de toda proposta pedagógica, pois “a fim de salvaguardar a dignidade e o destino humano, é necessário que o homem tenha consciência nítida de seu verdadeiro ser, que deverá orientar todo o seu ser, dizer e fazer”[10].


[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 43 ed. São Paulo:Paz e Terra, 2005, p.79.

[2] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Os pensadores. Volume I. Rio de Janeiro:Nova Cultural, 1999, p.319,320.

[3] ALVES, Rubem. A escola que sempre sonhei, sem imaginar que pudesse existir. 7 ed. Campinas: Papirus, 2004, p.99

[4] ALVES, Rubem. O amor que acende a lua. 10 ed. Campinas: Papirus, 2004, p.73

[5] op.cit. p.143.

[6] João 1:1.

[7] ALVES, Rubem. Por uma educação romântica. 5 ed. Campinas: Papirus, 2004, p.96

[8] Não só neste sentido metrópole, mas ambiente onde pessoas possam compartilhar em comunhão.

[9] ELIAS, Norbert. Sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1994, p.9.

[10] ROHDEN, Huberto. Educação do homem integral. São Paulo: Martin Claret, 2005:13.

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