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Missio Dei – João Batista

O que é Missio Dei? Em linhas gerais é a Missão de Deus, ou “o envio de Deus”. Embora, em termos práticos, seja hoje um conceito de domínio público, os especialistas marcam, historicamente, o ano de 1943, quando Karl Hartenstein, um missiólogo alemão, cunhou a frase em resposta a Karl Barth; mas foi Georg Vicedom, teólogo luterano, que durante a Willingen conference of the International Missionary Council (IMC), em 1952, quem desenvolveu, teologicamente, o conceito.

Deste da metade do século 20, o termo passou configurar no contexto da Teologia de Missões e da própria missiologia, como um conceito-chave. Dentre tantos autores que fazem uso do termo, quero fazer menção de apenas um, o Dr. David Bosch, que na sua Summa Missiológica, Missão Transformadora1, trabalha o termo de forma brilhante. E, portanto, Bosch argumenta que, fundamentalmente, a missão não é uma atividade da Igreja, mas um atributo de Deus, com isto, ele afirma que Jesus é missionário de Deus; e quanto a isto, concordo plenamente, fazendo-me valer do essencialmente missiológico “o verbo que se fez carne”. A Igreja faz parte da missão de Deus, ela, pois, não é em si a missão. A iniciativa missionária está em Deus, a Igreja é reflexo desta iniciativa. A Igreja participa da Missio Dei.

Dito isto, o presente texto se propõe a fazer pontuações sobre a Missio Dei, e não, necessariamente, fazer definições. Tenho como pano de fundo argumentativo a vida de João Batista, como sendo a voz “do” que clama no deserto, em referência a Jesus Cristo. Jesus é a expressão mais sublime da Missio Dei (Hebreus 1:1-4)

A Missio Dei é a excelência do Nome. Perceber o Nome no núcleo da Missio Dei em todo o contexto missional da narrativa bíblica é essencial para se entender o sentido soteriológico e eclesiológico em envolve a Teologia da Encarnação. Este Nome, é o Nome Regente, que se ergue sob signo da obediência e da humildade, e por conta disto é o Nome sobre todos os nomes (Filipenses 2:9-11). É a partir do referencial do Nome Regente, que em João Batista, o nome regido, temos os referenciais da Missio Dei: “Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João” (João 1:6). Houve um homem em Missio Dei que tinha o nome no Nome: enviado (o nome) de Deus (O Nome).

João Batista foi humano, totalmente humano, mas, na sua humanidade pôde hospedar o fenômeno da ação de Deus na história dos homens: “A Lei e os Profetas profetizaram até João. Dessa época em diante estão sendo pregadas as Boas Novas do Reino de Deus, e todos tentam conquistar sua entrada no Reino” (Lucas 16:16).

No calendário da ação profética de Deus, no estabelecimento da Missio Dei, João Batista é uma divisão de tempo. Antes dele havia de vir o Espírito de Elias (Malaquias 3:1; 4:5). Jesus, ao responder a questão sobre Elias, leva os discípulos a entenderem que Elias “era” João Batista: “Eu, todavia, vos afirmo: Elias já veio, mas eles não o reconheceram e fizeram com ele tudo quanto desejaram. Da mesma forma, o Filho do homem irá sofrer nas mãos deles. Os discípulos entenderam, então, que era a respeito de João Batista que Ele havia falado” (Mateus 17:12,13).

Depois de João Batista, o Reino de Deus é um espaço de desejo: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de violência se apoderam dele” (Mateus 11:12). A Missio Dei deve provocar este desejo. O que significa esta “violência”? Observamos que o termo “violência” se vincula ao termo (verbo forçar) “força”. A “força” fala da ação, a “violência” fala do método. Força (βίαζομαι, βιάζω, biazó)²; eu uso força como meio de chegar, de conseguir; forço meu caminho, faço avançar violentamente (ardentemente, esforçadamente) o meu próprio corpo, a mim mesmo.

Biázō – significa, pois, fundamentalmente, usar o poder para agarrar à força, apoderar-se de algo com agressividade positiva; “avançar com força”; avançar com vitalidade: “Não sejais descuidados do zelo; sede fervorosos no espírito. Servi ao Senhor” (Romanos 12:11). A dinâmica, pois, diz respeito aos que se esforçam com a maior intensidade e esforço, ou seja, desejo desejante.

Por sua vez o termo (substantivo) βιαστής3, biastés, fala do homem forte e violento (desejoso, ardente); aquele que está ansioso em perseguição. Portanto, fala “da pessoa” em sua atividade, em seu direcionamento, em sua busca. Portanto, biastḗs – que é uma assertividade positiva -, por assim dizer, é um apontamento para aquele que vive na fé (“persuasões trabalhadas por Deus“); onde a ação do Eterno guia e capacita, fazendo a agir “com força”, ou seja, “incendiado” por Deus para agir por Sua revelação. Missio Dei.


1 = BOSCH, David J. Missão transformadora. Mudanças de paradigma na teologia da missão. Tradução de Geraldo Korndörfer e Luís Marcos Sander. São Leopoldo/RS: Editora Sinodal, 2002. 

2 = THAYER’S GREEK LEXICON, Electronic Database. Copyright © 2002, 2003, 2006, 2011 by Biblesoft, Inc. All rights reserved. Verbete: βιάζω, βίαζομαι.

3 = THAYER’S GREEK LEXICON, Electronic Database. Copyright © 2002, 2003, 2006, 2011 by Biblesoft, Inc. All rights reserved. Verbete: βιαστής.

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