Saber dizer adeus.

Saber dizer adeus. A anulação do ser pela necessidade existencial.

Às vezes, é preciso saber dizer adeus. Mas, não somente é preciso dizer adeus, é necessário dizer adeus, às vezes; e não somente às vezes, mas, muitas vezes é necessário dizer adeus.

Mas, afinal, o que significa dizer adeus? É uma cisão! Uma ruptura! É estabelecer um hífen naquilo que se é constituído objeto da relação, do encontro, e reencontro, da recitação, da poesia. E não importa se é poesia sem verso e rima. O que é importa é existir na possibilidade de ser recitada. Pois o sentido é o sentido do dito naquilo que nos eleva; e o que nos eleva é sentido a partir do lugar que se ocupa na linguagem do ser que o outro, em essência, cativa na forma mais humana de ser: o doar-se.

É necessário deixar de compor, e assim, por algum tempo, rupturando o ser de si, a-deus, é fazer uma negação no inegável. É necessário dizer adeus, ainda que tomado pelo ceticismo, na negação, não mais do ser de si, mas do ser do outro, pois se ausenta na negação daquilo que nos é sagrado. Dizer adeus é fazer a negação do sagrado fora do eu, que no outro esteve presente dentro do Si, nos pasmos mais profundos do goza que se derramava em Ti.

Dizer adeus é a anulação do ser pela necessidade existencial: sem motivos se escreve, e ao escrever pede-se que não faça perguntas, que não cobre explicações: apenas que esqueça! Assim dizer a-deus é esquecer! É fazer morrer o divino que, na liturgia do ser, tinha erigido o mais devocional altar: o desejo.

Dizer a-deus, na negação do ser-em-Ti, do gozo do altar divino erigido junto ao teu corpo, que se faz morrer o desejo que tinha nascido quando pela primeira vez olhei os teus olhos, e que agora, na penumbra que percorre o ser-sem-Ti, se curva sobre a lápide onde jaz o meu corpo desejante.

A-deus!

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