Encantamento do desejo

Hoje, de uma forma absolutamente inquietante, acordei invadido, possuído, pela palavra encantamento. É uma sensação ímpar; parece que fui, estou, tomado por um estado onírico permanente. Se este estado onírico está em mim, e me dou conta da sua realidade, e entre uma palavra e outro, na tentativa de escrever, atos falhos emergem, então, o meu encantamento é a realização de um desejo. O desejo que se encontra por trás da palavra?

Aurélio diz que encantamento é o ato de encantar(se), que por sua vez significa, entre outras coisas, seduzir, cativar, maravilhar, arrebatar. Mas, para que isto ocorra, não é preciso uma ação? Parece que sim! A palavra! Ação de um ser sobre o outro! Mas, este ser não precisa ser necessariamente o que nos aproxima do mistério, este ser pode ser o mistério. Encantamento é um encontro com o que nos cerca, e, ao mesmo tempo se ausenta; o sensível e devorador; permitido e proibido. Mas em tudo isto, desejante. Seja como for: desejante.

Mas, como desejar estando encantado? Porque o desejo se manifesta no encanto! Não há como desejar daquilo que não se encanta, pois a falta de encanto é a ausência de tudo! O encanto, é o preenchimento da falta que temos do encantador, pois, o encantador, de alguma forma está no seu encanto. Assim, somos encantados nos gestos, nos olhares, no sorriso, no toque, no beijo, no aceno, no cheiro, na voz, nos sons, nos tons, nas cores; na pele que não se toca, mas sabe-se que ela existe; na saudade da ausência, de uma presença que se manifesta na sombra da alma cálida das tardes de primavera.

Ser encantado é ser achado! Feliz aquele que sofre o encantamento no encanto de um olhar, de um aceno, de um sorriso, de um gesto; feliz aquele que se deixa encantar na lágrima da saudade; na ânsia da perda recente, que mesmo doendo, consegue tirar as imagens de outrora, na áurea de cada momento vivo, de cada encontro realizado.

Mas, ser encantado, é, às vezes, perder! Perder não como ausência de si, mas perder como morte de si. Ausência de si é a anulação do ser, mas morte de si é se permitir transmutar, para, de alguma forma, ao seu tempo e lugar, se deixar achar na dimensão dos mistérios encantados! Pois o encanto do encantador está no desejo do encantado, que, ao deixar ser encantado se acha no seu desejo de ser desejante.

Mas, está encantado não é só ser achado, nem perder-se, é também ter falta. Se sou encantado é porque estou em falta. Ser um ser faltante é se deixar cercar de possibilidades. O encantamento só é possível em que é faltante. Falta de si, falta do outro, no corpo, sobretudo. Assim, encantamento é se permitir ser preenchido; assim, encantamento é ser preenchido, e preencher.

Quando nos permitimos ser encantados, nos permitimos entender a dimensão da vida, que se completa no encantamento do morrer! Morrer não como nulidade corpórea, nem oposição ao viver, mas como elemento composto da vida, aquilo que lhe atribui sentido e significado. Encantamento, é pois, morrer na vida, e viver na morte, numa transmutação permanente das faltas, sendo perdidas e achadas; esvaziando e sendo preenchidas, nos olhares e toques, tons e sons, cheiros, luzes, sombras, da presença corpórea.

No corpo desencanta-se, para encantar-se na perenidade do gozo, até ser perdido e achado; está vazio e preenchido, na falta que se tem.

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