Espiritualidade e Humanidade

Um dos grandes perigos que o cristão corre, dentre tantos, é o de confundir espiritualidade com animalidade religiosa. A animalidade religiosa é a ausência da razão como fator regulador do nosso comportamento de cristão diante de um mundo não-cristão. E o comportamento do cristão diante do mundo não cristão é fundamentalmente o do equilíbrio. Mas, afinal, o que é equilíbrio? Aurélio diz: “Manutenção de um corpo na sua posição ou postura normal, sem oscilações ou desvios”, Ruthe Rocha diz: “Estado de um corpo submetido a forças distintas, mas cuja resultante é nula”.  Em uma linguagem bíblica, significa dizer que, se ora e sou visitado por uma manifestação extraordinária do poder de Deus, não devo sair por aí dizendo ser a encarnação do novo-verbo de Deus; por outro lado não devo viver ridiculamente sem orar.

Onde está, então, o ponto de equilíbrio no viver do cristão? Acredito que o ponto de equilíbrio está na capacidade do cristão de conjugar Espiritualidade e Humanidade. Lembrando que humanidade aqui, não é o contingente, mas o comportamento. Isto significa dizer que a minha espiritualidade deve desejar, ardentemente, uma comunhão com Deus, e a minha humanidade põe esta comunhão em prática no relacionamento diário com os meus irmãos. Portanto, a minha humanidade é a responsável pela manifestação da minha espiritualidade. No universo dos seres humanos não há espiritualidade sem humanidade, nem humanidade sem espiritualidade. Os anjos têm espiritualidade, mas não têm humanidade, por isso: primeiro, não há remissão de anjos caídos; segundo, os anjos bons não podem pregar o evangelho (1 Pedro 1:12). Anjos não choram! Eles apenas são!

Portanto, para expressar o equilíbrio entre Espiritualidade e Humanidade foi que o Verbo (espiritualidade) se fez carne (humanidade)  ( João 1:14). Jesus é o paradigma do ponto de Equilíbrio. Condenava e pregava contra o pecado, mas se comunicava com pecadores. A aplicabilidade da espiritualidade está no fato de entendermos que, como humanos que somos, temos que ser sal da terra e luz do mundo (Mateus 5:13, 14. O crente não testemunha falando em línguas estranhas, mas vivendo a essência do cristianismo, e a essência o cristianismo é o amor (1 Coríntios 13). E o amor não é o vazio do abstracionismo, mas uma prática de vida num relacionamento com humanos diariamente.

É um erro pensar que o fator revelador da espiritualidade seja o isolamento, a pieguice, o está sempre contra tudo e todos, numa postura eremita. Ser espiritual é ter capacidade de criar e fortalecer amizade. Ser espiritual é chorar em oração aos pés de Cristo, para agir no caminho de Jericó com os samaritanos da vida. A verdadeira espiritualidade é aquela que quanto nos aproximamos de Deus, mais compreendemos o nosso próximo. Ser espiritual é amar o esposo, a esposa, os filhos, enfim, é viver em família com harmonia. A ‘espiritualidade’ que faz o filho odiar o pai ou vice versa é diabólica.

Enoque é um dos maiores exemplos de um humano que soube conjugar Espiritualidade e Humanidade. Ele foi perfeitamente espiritual que foi trasladado, mas foi coerentemente humano e gerou filhos e filhas ( Gênesis 5:22, 24). A sua espiritualidade não anulou a sua humanidade, nem a sua humanidade anulou a sua espiritualidade. A sua espiritualidade expressava-se pelo amor que tinha, humanamente, para com sua família.

Que Deus nos livre dos extremos, e nos conduza ao ponto de equilíbrio. Sejamos humanos sem perder a espiritualidade, e  espiritual sem perder  a humanidade. Amem!

Facebook Comments