E o eclesiástico?

O mundo, a cada dia, vem esboçando uma preocupação acentuada no campo da ética. Quando eu falo em ética, não tenho em mente algo como fator de regulamentação comportamental, com tons religiosos no que seja pecado e não-pecado. Neste sentido, dia-a-dia, o mundo caminha em sentido oposto à posição evangélica.

Esta preocupação pelo ético do qual eu falo, diz respeito à responsabilidade do indivíduo em face ao coletivo. Desde o advento do Código de Defesa do Consumidor, as pessoas passaram a refletir mais e, com isto, exigirem os seus direitos de cidadãos.

Esta nova postura das pessoas fez com aqueles que se propõem a oferecer algum tipo de serviço se adaptassem a esta realidade. Hoje as pessoas são vistas não apenas como indivíduo-da-comunidade, mas como cidadão-do-mundo. Não se pensa só no micro, mas, também, no macro; não se fala em espaço, mas em ciberespaço; não se olha mais para o metropolitano, mas para o cosmopolitano.

Com tudo isto, a política do direito do cidadão, fez com que profissões que ocupam lugar de destaque – como os médicos e os advogados, por exemplo – reescrevessem os seus Códigos de Ética, e outras profissões e atividades que jamais pensaram em ter um Código de Ética escreveram os seus. Com a explosão da internet vem junto a Política de Privacidade, que na realidade é um Código de Ética que regulamenta o uso dos sites, e e-mails; fala-se de anti-spam, enfim. E mesmo assim, ainda há pessoas inescrupulosas que vendem os endereços e, de repente, se recebe correspondências que não se tem a mínima ideia de onde vêm.

O governo, preocupado com o grande índice de corrupção entre os servidores, cria o Código de Ética do Servidor Público. A corrupção no seio da política, sobretudo no Executivo Municipal, obriga o Governo criar, e o Congresso aprovar, a Lei de Responsabilidade Fiscal. Por outro lado, em todo o Brasil a sociedade se organiza para exigir das autoridades o cumprimento da lei. Grita-se pela moralidade pública e administrativa.

Senhores, será que podemos perguntar: E o eclesiástico? Será que não há necessidade de exigir que haja moralidade na administração eclesiástica? Compromisso com a verdade, com a transparência nas contas da igreja, relatórios financeiros realistas? Despesas pastorais que realmente aconteceram? Viajem que são de fato a serviço da igreja e do reino de Deus? É ético pôr notas de churrascaria como se fosse evangelização? Despesa pastoral é uma coisa e despesa pessoal outra totalmente diferente. A única coisa em comum entre pastoral e pessoal, no uso do dinheiro da igreja, é a rima, daí para frente, meu amigo, é uma questão de ética.

Querendo ou não esta postura reflexiva está viva dentro da igreja. O povo não quer mais ouvir aquela história: “Aqui o pastor sou eu e pronto”. O povo quer sim um pastor, mas, antes de tudo, quer um amigo sincero. Quem não se enquadrar estará out.

Amados, se Jesus não voltar logo, e espero que isto aconteça o mais breve possível, pois se Cristo não voltar logo, chegará o tempo que teremos pastores enfrentando os tribunais, respondendo a processos movidos pelas igrejas, por improbidade administrativa.

E o que dizer das relações humanas do pastor? Faltar-me-ia tempo e espaço para falar de tudo isto. Quero que os senhores pensem e discutam a questão. E o eclesiástico? Não venda o endereço da  igreja que você dirige, ela não é sua, pertence ao Senhor Jesus. Lembre-se que Deus lhe colocou onde está para garantir ao seu povo o direito da inviolabilidade (Efésios 4:11-15). Não sejamos nós, pois, os primeiros, nem os últimos, a violar este direito. Que Deus nos ajude!


NOTA: Devo ter escrito este texto entre 1999 e 2001, não me recordo. Sei que foi publicado em uma das primeiras edições do  CEADEB Informe, que idealizamos na gestão do Pr. Wolmar Alcântara dos Santos, não lembro também se já na presidência ou vice presidência.

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