Recorte de livros meus,  Reflexões existenciais

Silêncio da Fala.

Algumas vezes já me perguntaram se o silêncio nos processos relacionais, especialmente dentro da variável comunicação, é prejudicial para a conjugalidade, quer no namoro, noivado ou casamento. Eu sempre respondo que depende, pois, como tudo na vida, os eventos precisam ser contextualizados; é preciso ter um olhar amplo do que é o silêncio neste caso. E assim, eu sempre respondo que se o silêncio na conjugalidade é uma fala, ele tem a sua validade. Um silêncio que não atribui sentido e significado é um ato de infidelidade, pois, falar é uma das condições diferenciais do ser humano enquanto ser simbólico, portanto, não simbolizar por meio da fala, dentro do processo relacional, é um ato de infidelidade.

Isto mesmo, o silêncio pode ser uma fala. Neste sentido, é preciso fazer a diferença entre voz e fala; a voz, como sabemos, é a emissão de sons; já a fala é a expressão de sentido e significado. Assim sendo, se no silêncio se tem uma fala, este silêncio precisa ser levado em consideração. Este silêncio precisa ser interpretado adequadamente.

Aqui temos duas questões fundamentais para se entender o silêncio como fala. Primeiro, o silêncio não deve ser acusação; segundo, o silêncio não deve ser punição.

O silêncio de acusação leva o parceiro a emitir comportamentos no sentido de fazer com que o parceiro entenda que aquele silêncio é porque ele (o/a parceiro/a) é culpado(a); então, quem está em silêncio, normalmente, neste contexto, vai querer transparecer que o seu silêncio não é uma questão pessoal, não é porque ele quer estar em silêncio, o seu silêncio é porque o outro é culpado. Isto é perversidade. Pois, como sabemos, não existe, nos processos relacionais, seja em qual for o contexto, apenas um sujeito da relação. O processo relacional, é, no mínimo, estabelecido por duas pessoas. Então, se você é optou em fazer silêncio e este silêncio tem de ser uma fala e não sinais de acusação. O silêncio tem que ter sentido e significado.

Bem, o outro aspecto quando o silêncio não é uma fala é a punição. O(a) parceiro(a) põe-se em silêncio apenas para punir. Ele(ela) deixa claro, na sua forma silenciosa de se colocar, de que ele está em silêncio porque o outro não merece a sua fala, porque o outro não merece a sua voz; este é um comportamento pernicioso, tão pernicioso quanto a acusação; todavia, na acusação tem-se a hipótese de que o outro pode se defender, já na punição a pessoa é posta como sentenciado julgado e sentenciado; assim sendo, esta acusação se configura como uma sentença final.

Portanto, o silêncio pode ser uma fala desde que essa fala tenha sentido e significado; assim sendo, o silêncio pode ter sentido e significado quando os dois sujeitos da relação (um relacionamento é estabelecido no mínimo por dois sujeitos) percebem que, naquele momento (que pode durar um tempo indeterminado), o silêncio é a melhor forma de dizer para o outro que é preciso esperar, dar um tempo para que as coisas vão se acalmando e se ajustando dentro do processo relacional, pois, este silêncio tem uma fala, tem sentido e significado.

Vejam bem, o silêncio que é fala, não é um comportamento sem sentido e significado, porque no sentido e significado as coisas vão se ajustando dentro do processo relacional. Então, a beleza do silêncio como fala é que ele continua emitindo sentido e significado, por isto o processo relacional vai assumindo contornos de resolução de conflitos. É preciso dizer que nem todo silêncio de fala é um silêncio de voz; há pessoas e momentos que têm voz, mas não tem fala; e quando há falas, nem sempre haverá voz, pois, como dito, o que faz a fala é o sentido e significado. Mas, é sempre preciso entender que a voz é a moldura da arte da fala.


Pense nisto, reflita sobre isto e que Deus nos ajude.

Facebook Comments

Desculpa! Mas, escrever este texto deu trabalho!