Reflexões existenciais

Meu luto

Toda a minha formação de psicólogo acontece sob a influência da “morte, o morrer e o luto”; o meu Trabalho de Conclusão de Curso teve como tema: “Epitáfios – O Discurso do enlutado”; onde fiz uma análise do epigramas descritos nos epitáfios…é um trabalho lindo! Assim, venho pesquisando, escrevendo, lendo, fotografando, enfim…vivendo o assunto! Estou vivendo estes dias…a minha mãe morreu!

Tive uma professora que, questionando-me sobre a minha escolha para com o tema “morte e luto”, respondi-lhe do lugar da formação, da academia: é um nicho. Ela sorriu suavemente! E, como excelente psicanalista que é, sentenciou: “as nossas escolhas são, em grande medida, resultados processos (do)inconscientes”. A nosso luto será, em grande medida, determinado pela forma como convivemos com a realidade da morte, sendo esta a única possibilidade possível onde a finitude humana se ancora.

E fazendo uma leitura do meu percurso dos eventos de morte e luto, vejo como ele são marcantes! Lembro com muito nitidez o dia da morte e enterros dos meus avós maternos; tenho as imagens vivas da angústia da minha mãe, mas, ao mesmo tempo, do seu espírito resoluto (re-so-LUTO; do seu luto, do seu lutar e da resolução de continuar a sua caminhada); não convivi com o meu pai, por isto não tenho imagens da sua morte; não tenho lembranças! A morte e luto só faz sentido pela vivência! Não vivência pelo tempo, necessariamente, mas a vivência do SENTIDO…podemos ter pouco tempo de presença e presencialidade com uma pessoa, mas termos um mundo de vivência de sentido.

Perdi um grande amigo, um irmão: o Pr. Jailton Simões; morreu repentinamente, numa curva, numa BR, voltando para casa; morreu jovem, aos 45 anos! A sua ausência ainda dói muito, e continuará a doer, de alguma forma; pois, a dor é um sentido, é um sentir, é uma fotografia; é um som, tem um tom! Ainda sinto falta da irmã Marilene Batista (só quem é do Maiobão, Paço do Lumiar, na Ilha de São Luis-MA, que viveu entre 1984-1986, sabe desta senhora querida); aos domingos, eu novo convertido, chegava para fazer o culto na feira, em frente a sua casa, ela já estava na janela esperando, e gostava de dizer: “você está bonito hoje”. Sinto saudades de Elias Coelha, um amigo que tão jovem nos deixou… enfim, de tantas outras pessoas queridas que foram recebidos com o esplendor da alegria na glória eterna. Este é o sentido da vida cristã: “Porque para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro!” (Filipenses 1:21)

Esta foto, da capa deste post, fiz no Parque dos Lençóis Maranhense, em fevereiro de 2011. Vou chamá-la de “Tocando o céu com a mão”. E a escolhi como imagem do meu luto! O meu luto não é negro no seu símbolo; é da cor do céu, da terra, do mar, do ar! O meu luto é da cor da alma da minha mãe: vívida, dinâmica…

Quando perdi a minha mãe, a dor da perda é indescritível, mas não é neutralizante; não foi desesperadora, pelo contrário, foi sublime; havia uma doce sensação da presença do seu sorriso, na sua forma de louvar, de orar, de aconselhar…da sua sabedoria! Ah! A foto já não se chama “tocando o céu com a mão”, mas, “tocando o céu com o ser”. Então: aproveite: viva em paz com a sua família, pois, a qualquer momento, ainda hoje, podes perder alguém, com o qual estás sem falar, tens magoas profundas…acerte-se coma vida, com as pessoas, consigo mesmo! O tempo não negocia com ninguém, ele não aceita pagamentos, muito menos subornos! Faça isto ainda hoje, para que, no momento do teu luto, não sejas atormentado pela culpa, pelo “eu devia ter feito assim, isto e aquilo”, faça enquanto é possível. Faça agora! Pegue o telefone, ligue para a pessoa, para as pessoas…reconcilie-se, perdoe, peça perdão; perdoe a si mesma! Viva! Permita a si mesmo tocar o céu com o teu ser… pois, amanhã pode ser tarde demais!

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Desculpa! Mas, escrever este texto deu trabalho!