Recorte de livros meus,  Série Conjugalidade

Relação Humana: o simbólico entre pessoas e objetos (coisas).

Quem me acompanha e ler o que escrevo, sobretudo, os textos mais densos e estruturais, deve ter observado o meu apreço pela semiótica e a semântica. Sou uma pessoa que busca, com bastante intensidade, o sentido das coisas. E naturalmente, penso que esta devia ser uma postura de todo ser humana, afinal, somos os únicos seres vivos que tem na linguagem a sua razão de ser e existir enquanto dimensão de expressão e sentido. Somos o único ser vivo que simboliza. Tudo que fazemos e sentimos é intermediado por processos simbólicos. Para nós, humanos, nada, mas absolutamente nada, nos escapa do processo de simbolização.

Nos relacionamos, fundamentalmente, com pessoas e coisas (objetos). Com objetos, o nosso processo de simbolização, embora acontecendo dentro do contexto social e cultural, ele nasce na primeira pessoa, passa pela primeira pessoa e volta para a primeira pessoa, portanto, a dimensão sígnica desta relação vai depender, em todos os sentidos, como esta pessoa se posta no mundo; primeiro, na sua relação as coisas, segundo em sua relação aos outros, e terceiro na sua relação consigo; esta ordem é determinante na nossa relação com as coisas. Ou seja, a minha relação com os objetos vai depender de como eu estabeleço sentido a estes objetos, aos outros e a mim a mesmo. Com isto quero dizer que estabeleço o sentido dos objetos a partir do sentido da minha interação com o mundo: o outro e eu mesmo.

No nosso relacionamento com pessoas, ele nasce na primeira pessoa, passa pela segundo pessoa e volta para as duas pessoas, portanto, a dimensão sígnica desta relação vai depender, em todos os sentidos, como a primeira pessoa se posta no mundo; primeiro, em relação a si mesmo, segundo em relação aos outros, e terceiro em relação ao sentido que dou aos objetos; esta é uma ordem determinando na nossa relação com as pessoas. Ou seja, a minha relação com as pessoas vai depender de como eu estabeleço sentido a mim a mesmo, aos outros e as objetos.

Não há nenhum problema, pois, em nos relacionar com as coisas, é necessário e não há como fugirmos da nossa relação com os objetos! O grande problema é quando não se consegue diferenciar pessoas de coisas (objetos), ou ainda quando de quer transformar pessoas em coisas, em objetos de uso pessoal.

Quando a pessoa humana, na sua relação com outro humano, perde a sensibilidade de perceber o outro tão humano quanto ele, é porque está vivendo na ordem das coisas, o estabelecimento de sentido circula apenas em torno da primeira pessoa, o mundo já não é um lugar onde os processos recebem a intermediação do simbólico, e, por assim dizer, esta pessoa está seriamente adoecida. Tudo que ela faz e desejo, ainda que aconteça no contexto social e cultural, ela terá a si mesma como início, meio e fim dos processos relacionais. Ela é obsessiva, ela é cadastradora, ela é dominadora, ela é aliciadora, é egocêntrica, é chantagista, é narcisista, ela é o centro e a medida de si mesmo, ela não diferencia pessoas de coisas, nem coisas de pessoas; ela não aceita o não como algo positivo, ela não aceita o contraditório, ela impõe o silêncio dos outros e a amplificação da sua voz.

Mas quem consegue olhar para o outro e perceber este outra tão humano quando a si mesmo, tem conseguido estabelecer sentido à sua existência e, por assim dizer, à sua razão de ser e está no mundo. Mas esta é uma posição que nos abre, inevitavelmente, a porta de uma vivência muito temida por todos os nós: a possibilidade de sofrer. Todos nós temos medo do sofrimento, todos nós temos medo das perdas, todos nós temos medo da morte e do morrer. Mas a grande ação do simbólico sobre a nossa existência é nos levar a experiência por meio da vivência dos opostos. Como poderei estabelecer sentido, dimensão de valor, para a chegado se nunca me despedi? Como saberei viver a alegria de ser achado, se nunca vivenciei a dor de ser perdido? Como poderei saber o sentido e significado do sorriso se nunca chorei? Como poderei saber o sentido e significado de ganhar se nunca perdi? Como poderei celebrar a vida se nunca me permiti chorar a amargura da perda de uma pessoa querida (um amigo, um familiar)? Como poderei saber o que é levantar se não aceito a queda do outro, e muito menos a minha própria queda? Como poderei valorizar o sim, se nunca aceitei o não? Como poderei dignificar o amor, se nunca experienciei o dessabor?

O simbólico nos chama para pensar, nos convida para avaliar, nos desafia a resignifica a nossa história. O simbólico nos chama para pensar a nossa própria condição sem negar a condição do outro. O simbólico nos impõe o diálogo.

Pense nisto, e convido-te a abrir-se para o sentido da vida, o sentido das pessoas, e assim, as coisas estarão no seu devido lugar e te servirão apenas como coisas; e as pessoas serão o caminho por onde a tua vida, e minha vida, a nossa vida, encontrará sentido de ser e está no mundo.


(No livro “Casamento não é COISA conquistada, é ATO Conquistando)

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Desculpa! Mas, escrever este texto deu trabalho!