Expressões de espiritualidade,  Reflexões existenciais

Tango, Sensualidade e Espiritualidade

Penso em espiritualidade como um movimento, uma ação que se articula a partir da presença do sujeito no mundo, como ser para-a-morte, que refletirá, nomeadamente, na forma como este sujeito organiza a sua subjetividade, o seu eu-consigo, portando, a sua espiritualidade. E ao pensar em espiritualidade como movimento, não há como não pensar, a meu ver, em tango, a música! E ao pensar, sentir, ouvir e vê, o tango tem a expressão existencial, insofismável, do que seja sensualidade! Tenho: espiritualidade, tango e sensualidade.

Os fundamentalistas, xiitas, dogmáticos e extremistas da religiosidade, pelo que se observa na prática litúrgica de suas vidas, colocam-nas sob o rigor de uma existência amarga, sem brilho, sem cor, sem som e, portanto, sem movimento: sem tango, sem sensualidade, vão dizer que ver espiritualidade na dança do tanto é um sacrilégio. Sim, é sacrilégio em almas aprisionadas nos porões da maldade que mata em nome de Deus. A sensualidade da qual eu falo, passa, certamente, pelo encontro amoroso, pela cumplicidade conjugal, pela sensorialidade epidérmica, pela conjunção de corpos; todavia, vai muito além dos ecos orgásticos da existência humana. A sensualidade que fala se ancora na sexualidade, na eroticidade e corporeidade, certamente, mas avança para além destas categorias e suas benfeitorias, para que estas sejam manifestadas, é preciso, antes esta sensualidade que fala seja a experiência da epifania do sujeito consigo mesmo, para que ele possa ser pessoa em convivência com o outro.

A sensualidade que penso como expressão da espiritualidade, que se refere simbolicamente no movimento dos acordes vibrantes, marcados, na sincronia dos olhares que se grudam na arte do tango, é uma condição ex-istencial. É uma condição do sendo Ser humano, e não exclusividade deste ou daquele grupo. É um ser-aí, posto no mundo com o olor que convida as pessoas, amigos e estranhos, familiares e família, vizinhos e distantes, ao movimento das sensações. Um ser-aí que nos possibilita sentir o cheiro das águas nas raízes da nossa existência, muitas vezes castigadas pela aridez que nos confronta diariamente na luta do nosso reconhecimento como pessoa humana num mundo cada vez mais predador.

Penso em tango e sensualidade na relação com espiritualidade como movimento que nos faz sentir a vida. Espiritualidade que se expressa, num ser, que é humano, como manifestação última do verbo que se fez carne, vivendo esta dimensão humana em todas as suas possibilidades, que encontra na sua expressão litúrgica organizada, o que se pode chamar de comunidade, o lugar de dizer que crer, que tem , que ama a Deus. Fora desta dança, desta sensação, podem reunir-se onde quer que seja, ouvir quem quer que seja, serão somente religiosos ávidos por condenar.

Neste sentido, penso que Deus, na manifestação do calor e poeira de Nazaré, nos convida, diariamente, a dançar um “tango” com ele. Quer seja na fuga de um profeta orgulhoso como Jonas, quer no medo depressivo do profeta Elias, no drama de Davi, no amor infantil de Pedro, no espinho na carne do apóstolo Paulo, nas lágrimas de Jeremias, no propósito de Daniel, na mulher viúva que cata alguns gravetos no intuído de comer o último bocado de trigo e depois morrer ela e filho, nas êxtases apocalípticas do profeta Ezequiel, nas consolações de Barnabé, nos sonhos de José, na ousadia de Josué e Calebe, nos desertos de Moisés, na fugo de Onésimo,  enfim… na história de vida de homens e mulheres, em todos os tempos, agora e por vir, que, se alguma forma, estão sob a sombra do cruz: o som, a sensação e a espiritualidade:  Eli, Eli, lamá sabactani.

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Desculpa! Mas, escrever este texto deu trabalho!