Reflexões Existenciais

Entre o MAIÚSCULO e o minúsculo

Entre o MAIÚSCULO e o minúsculo: o que eu disse e o que o outro acha que eu queria dizer. Eu estava trabalhando em texto, digitando-o no Word Microsoft quando eu precisava usar a expressão em latim et al, e, automaticamente, na proporção que digitei et, ele se transformou em ET e quando digitei al se transformou em AL. A expressão et al, numa tradução direta significa “e outro” ou ainda “entre outros”.

Bem, entre o que eu estava dizendo com a expressão et al e o que o Word entendeu o que eu estava querendo dizer são coisas absolutamente diferentes. Eu estava citando um determinado autor e dizia, então, que além daquele autor o texto citado tinha sido escrito por outros autores, conforme as regras da ABNT. Mas, AUTOMATICAMENTE o Word “entendeu” eu queria dizer ET AL. Bom, se considerarmos o significado desta sigla sugerida, o Word achava que estava querendo dizer Extraterrestre de Alagoas! Nem pensar!

Então, qual a lição que tenho com este episódio da sugestão tecnológica? Que a programação automática nunca vai corresponder à realidade do processo de comunicação sugerido, requerido! A comunicação na pós-modernidade tem respondido deste lugar; do lugar da automatização, do já pronto, do aqui e agora, do a-temporal; vivemos a negação do outro, do tempo, do sujeito, das relações, da interpretação.

As pessoas estão cada vez mais automatizadas, estão programas para responder a partir de comandos identificáveis, apenas; mas há uma ausência colossal do sujeito relacional. Há apenas um indivíduo, dividida, “esquizofrenizado”, que não escuta mais, apenas ouve os sons do comando, “entendendo” que o que outro diz é apenas uma maiusculização programada que, arbitrariamente, pode substituir o dito em si, por um entender maquinal. Isto tem feito com os sujeitos percam a sua condição de singularidade, para responder de um lugar de indivíduos autômatos; androides automatizados por demandas das mais variadas e imagináveis possíveis. Com o isto estamos perdendo os fundamentos que nos constituem sujeitos com autonomia, para sermos apenas objetos que respondem a comandos dos senhores da modernidade, e creio eu, que liderando pelo capitalismo selvagem.

O que nos faz sujeitos é a singularidade, sobretudo, naquilo que repousa nas possibilidades de interpretar as nuanças que cercam o outro, para que assim, a partir de um olhar que se situa numa ontologia de possibilidades humanas, passa oferecer oportunidade para que o outro, na sua forma de ser e existir, nos fale de si pelo que ele é, e não pelo que “eu entendo” como resultado da automatização demandada do sistema fluido, liquidificado (Zygmunt Bauman), sem gravidade (Charles Melman).

Que nos nossos ouvidos sejam abertos para a escuta do sujeito na sua forma mais singular, existencial possível, e, estão, nos cercando de cuidados para não nos transformamos em andróides automatizados; para se dar lugar ao sujeito desejante de si e do outro, onde cada um responda do seu lugar. E isto só será possível se deixarmos que a linguagem existencialize. Existencializar a linguagem é permitir que o outro seja o que é sem que se automatize como maiúsculo aquilo que se apresenta como minúsculo, não permitindo que se seja o que é. É deixar, antes de tudo, que o outro fale, para então, num processo relacional de sujeito, possa saber o que realmente foi dito. E isto só possível no tempo. Tempo de si, tempo do outro, tempo de nós! Entre o MAIÚSCULO e o minúsculo: o que eu disse e o que o outro acha que eu queria dizer.

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