Psicologia

Tecnologia e Sentido

Sou um entusiasta da tecnologia! Sou do ponto de vista que deste sempre a tecnologia, nas suas muitas formas, tem sido um instrumento que pode ajudar a qualidade de vida, aplicada em todas as áreas da vida. Mas, devo dizer que sou ponto de vista que, no atual formato, o uso da tecnologia no plano das relações pessoais, nomeadamente, as redes móveis de telefonia, estamos vivendo algo muito fragmentador.

Somos seres simbólicos, esta é uma condição essencial que nos coloca em uma posição diferente em todo criação. Somos seres de significado, de sentido!

O atual modelo de relacionamento é uma armadilha, pois, deixa as pessoas numa ilusão que estão estabelecendo sentido com o monossilabismo, apenas, e tão somente seus “emoticons“. Estou perfeitamente ciente que isto é um caminho sem volta, que faz parte da vida atual. Sim, sei disto, e até uso isto. Nada contra. O meu questionamento vai quanto a nossa posição dentro do sistema, a nossa posição no uso, no estabelecimento de sentido. Um emoticons, por exemplo, não é sentido em si mesmo; um signo precisa fazer conexões semânticas com o “antes” e o “depois” de si; e preciso criar um ambiente estrutural para que o signo linguístico compra o seu papel e criei sentido comunicativo. O atual modelo, no exemplo, da telefonia móvel, tem-se um “buracos”, ele não produz uma estrutura comunicativa. O monossilabismo é reinante: sim, não, vi, vou, tenho, sei, entendo, imagino. Sempre que usa esta ferramenta, o WhatsApp, especialmente quando início uma chamada dialógica, procuro usar o que chamo de ganchos semânticos. Por exemplo: nunca digo só: “olá”. Normalmente, digo: “olá, tudo bem contigo, e a família como vai?” E normalmente a resposta são: “bem”.

No bojo da questão jaz um processo permanente de fragmentação da relação, neste modelo o sentido de “laços” já faz sentido, não tem como se estabelecer; o sentido de “apego” soa como algo que incomoda. Mas, somos humanos! A nossa condição de sobrevivência é posta sob esta perspectiva de vivência: laços, apegos, sentido, presença…

No uso do WhatsApp, por exemplo. Você não tem “sincronia dialógicapessoa-pessoa, pois, as pessoas estão falando com um número incalculável de pessoas ao mesmo tempo; o diálogo (mas não é diálogo no sentido lato do temos) não é estabelecido no sujeito que fala (fala é forma de dizer), ou seja, que escreve (que escrita?), o que há é um “impressão” digital da grafia, que, no emaranhada de conversas paralelas, é “recuperado” apenas os pedaços, os fragmentos. Assim, as pessoas vão “pegando” apenas aqueles “peças” que lhes interessam. Palavras se perdem. Sentido não são produzidos! Eu prefiro ter dez segundos de diálogo pessoa-pessoa em que se constrói sentido, e que o que foi dito e apreendido em dez segundo fique para toda vida, que mendigar fragmentos de palavras e “emotions” que não estabelecem sentido.

Este modelo que aí está sutilmente egoísta! Senão, pense! Todos nós agora temos que “pedir autorização para ligar para alguém”. Segundo alguns especialistas em “etiqueta social” isto está correto! Não, não está correto! Existe algumas questões aqui que precisam sem entendidas. Primeiro: quem é esta pessoa para quem preciso ligar? Um amigo, um parente, o pai, o filho, a mãe? Qual o sentido da ligação: pessoal, profissional, comercial? Passamos o dia inteiro recebendo ligações de operadora de celular e cartão de crédito, e ninguém diz que isto é falta de educação, por que, quanto tenho que fazer uma ligação para alguém que diz ser amigo, preciso antes mandar uma mensagem perguntando se posso ligar? Por que um pai ou mãe tem que mandar uma mensagem para um filho perguntando se pode ligar? Gente, isto é loucura! Eu, sujeito autônomo, não preciso pedir autorização, pois, a ligação parte de mim, do meu lugar, eu não estarei invadido a privacidade de ninguém. É bem simples a questão: ele atende se quiser. Ponto! Esta é questão! A liberdade de ligar é minha, e a liberdade de atender é de quem recebe, todavia, estabelecer outro processo, no qualquer eu tenho que ser autorizado a fazer o movimento dialógico, é romper com o princípio elementar da dinâmica da comunicação: a autonomia do sujeito fazer o seu movimento de tentativa de diálogo. Este modelo que aí está deixa as pessoas em “suspensão” do diálogo, e isto é horrível. Por isto, é preferível dez segundo que diz: “agora não é possível, nos falamos num momento oportuno”, que uma manhã inteira de fragmentos digitais de palavras abreviadas e emotions sem sentido. Eu prefiro ter dez segundo de atenção concentrada, que horas de emotions fragmentos, de monossilabismo de palavras perdidas, desconexas.

Pessoas precisam de pessoas! Ama as letras, as sílabas, as palavras, as frases, a sentenças. Sim, vivenciamos o graphê; sim, vivenciamos phonê. Todavia, o que somos é resultado da vivência com outros humanos, com o ambiente em nossa volta, que vai além do domínio da escrita e da fala. Somos pessoas que precisam de pessoas, a pessoa em si, o rosto para que possamos construir o nosso sistema de sentido. O sentido da escrita e o sentido da fala estão nas pessoas, e não neles em si mesmos.

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