Conjugalidade,  Séries

Por que é tão difícil ceder?

Por que é tão difícil ceder ao Outro? Ou: A negação da morte e ausência de alteridade! O animal humano, na sua relação ambiental, sob qualquer perspectiva, é um bicho que se inscreve no mote da sobrevivência. Fala-se no instinto de sobrevivência! O homem é o único animal que tem o desejo de viver instalado – não importa se manifesto ou não –numa perspectiva ontológica, portanto, é o único bicho que tem consciência de si. Talvez seja esta a sua grande benção, bem como a sua incurável e persecutória maldição. É este registro ôntico[1], que permite ao animal humano uma ontologia das possibilidades desta consciência de si.

Ao ter consciência de si, ao tomar consciência da sua finitude, da circunscrição do seu desaparecimento, a qualquer momento, de qualquer forma, o animal humano busca, com o que lhe for disponível, estende-se para além-de-si. E o casamento é a via pela qual o projeto do estender-se para além-de-si encontra ecos, mesmo que o casal não tenhas filhos, visto que é no parceiro, e não filhos, onde é possível a acoplagem desta possibilidade do além-de-si.

Ainda que o homem reconheça do dependência do outro, este tem muitas dificuldades de abrir espaços existenciais com possibilidades livres e incondicionais para o preenchimento do outro. Quando, pois, surge uma possibilidade, esta é tangenciada pela condicionalidade narcísica do desejo de gozo pleno pela disponibilidade do outro. Ninguém cede só pelo rosto do outro, de alguma forma, quando cede, se cede pelo gozo no Outro: o que ele tem a oferecer e o que eu posso abstrair, num abduzir do narcisismo reinante. Penso, assim, que o lugar bíblico nos ensina a pensarmos sobre outras perspectivas, como já falei aqui sobre o “amar o próximo como a si mesmo”.

É difícil cede, pois quando cedo sou afogado no meu próprio espelho d’ Água. É difícil ceder porque é um ato tanatológico: ceder é morrer! “Se o grão de trigo caindo na terra e não morrer, fica ele só” (João 12:24). Casar é ceder! Casamento é ceder. Relacionamento conjugal é ceder. Viver é ceder. Se não temos a perceber do seja ceder, casar vai um inferno.

O homem, ao ser forjado nos processos sociais, desde cedo é alimentado pelo desejo do outro ao menor sinal de necessidade. A mãe ferra o filho como propriedade (e o termo propriedade é muito significante como designação de deidade), assim como o fazendeiro ferra o seu gado! O ser humano é um animal ferrado: ferrado pelo desejo da mãe, inicialmente, que se estende ao desejo do outro de forma indefinida, num universo de surpresas, amores, desamores, encontros, desencontros. Somos, ao nascer, batizados por imersão no desejo do adulto! Assim somos, narcisicamente, inscrito na linguagem do mundo, sem prosa nem verso, que diz: Não ceda facilmente!

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Somos hoje, mais que nunca, expostos a nos comportarmos requerendo a presença do outro, sem, contudo, permitir que a presença tenha alguma forma de expressão: seja sem ser. Destarte, se você cede, você desconstrói a sua auto-suficiência, e nesta perspectiva, abre mão deste projeto narcísico, e, neste caso, é abrir mão do direito de ser o seu próprio pai. Ceder é perder a possibilidade de beber no próprio umbigo; e o desejo de beber no próprio umbigo é o desejo inominável da marca da ferradura que jaz subjacente no discurso do animal humano. É como diz Becker: “Ceder é admitir que o apoio tem que ver de fora do indivíduo e que a justificativa para a sua vida tem que vir totalmente de alguma teia autotranscendente na qual a pessoa consente em ficar pendurada[2]”. No mundo pós-moderno que fabrica autômatas narcísicos, tal coisa é impensável. Um relacionamento conjugal que tem espaço para ceder, se por acaso sobreviver, será um relacionamento narcísico entre vampiros.

Para, então, lidar com as exigências que as relações sociais impõem, o sujeito tenta evitar a realidade das coisas! Não se pode morrer[3]! Surge, então, especialmente, na modernidade, a negação do Outro! Mas, isto tem um preço muito alto a ser pago: a sedução da genialidade! O Outro fora-de-mim é presunção fantasmática do desejo genial. “Se sou gênio, por que ceder”? Eis a questão central! E existe coisa mais narcísica que a sedução de ser-feito gênio? O ser-feito gênio, por si ou pelos outros, recai sobre este na necessidade de “conquistar o seu valor como pessoa com o seu trabalho, o que significa que o seu trabalho carrega o ônus de justificá-lo. E o que é que ‘justificar’ significa para o homem? Significa transcender a morte ao habilitar-se à imortalidade. O gênio repete a presunção narcisística da criança: vive a fantasia do controle da vida, da morte e do destino no ‘corpo’ de sua obra [4]”. Gênio-narcísico pensa ser autógeno! Isto se aplica às relações conjugais! Especialmente, naqueles que discursam sobre o casamento perfeito! Papo furado! Totalmente furado.

Mas, convém salientar, que sob esta perspectiva habilitar-se para imortalidade não se conjuga como projeto escatológico, mas como afirmação da alteridade da presencialidade na ausência ôntica do Outro, ainda que este seja o postulado narcísico do sujeito desejante. Na modernidade não se está permitindo perceber o registro ôntico do outro.  Assim, em grande medida, a autogenia termina por caracterizar a modernidade: não há espaço para o nascimento: nascer é ceder, é abrir espaços. Pois, a condição mínima para que o sujeito, ao ser constituído como tal, é manter a possibilidade do nascer, e assim ter-se o registro do Rosto[5], e ter espaços-vazios-de-Si. É pelo buraco do espaço-vazio-de-Si que se tem possibilidade de ver o Outro, e assim, ver o mundo, des-locando do Ser-em-Mim, para ser Ser-no-Outro. Por este buraco será possível conjugar eu-tu. Eu-Tu é o que Martin Buber chama de palavra-princípio; eu chamaria de palavra-deslocante, pois o Ser-no-Outro não é uma condensação do eu e tu, mas a manutenção da abertura relacional, manter o buraco aberto: é experiência. Assim, “se a experiência significa precisamente relação com o absolutamente outro – isto é, com aquilo que extravasa sempre o pensamento – a relação com o infinito completa a experiência por excelência”[6]. A nossa relação com o outro, em se mantendo aberta, é posta no infinito das possibilidades, pois “a idéia do infinito é o modo de ser – a infinição do infinito”[7].

É preciso esvaziar o gênio! O que fazer? É preciso autonomia! Para reconhecer os espaços-vazios-de-Si! Autonomia é o veículo de libertação:

“Como dever doce abrir mão do colossal fardo de uma vida de autodomínio, autoformação, relaxar a crispação com que a pessoa se agarra ao seu próprio centro e ceder passivamente a um poder e a uma autoridade superiores, e que alegria nessa rendição: o conforto, a confiança, o alívio no peito e nos ombros da pessoa, a leveza no coração, a sensação de estar sustentado por algo maior, menos falível. Com os seus problemas característicos, o homem é o único animal que pode, muitas vezes de bom grado, abraçar o profundo sono da morte, mesmo sabendo que isso significa o esquecimento”[8].

Que Deus nos ajude!


[1] Penso ôntico e ontológico numa perspectiva de Gilberto Safra: “O ôntico refere-se aos fatos da existência humana, enquanto o ontológico diz respeito ás estruturas a priori que definem as possibilidades realizadas em cada existência humana”. SAFRA, Gilberto. Hermenêutica na situação clinica – o desvelar da singularidade pelo idioma pessoal. Edições Sobornost: São Paulo, 2006. p.22

[2] BECKER, Ernest. A Negação da Morte: uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. Record: São Paulo, 2007. p.139.

[3] Pois reconhecer o seu desaparecimento é conhecer a realidade existencial do outro, e isto é tudo o que o homem moderno não quer: reconhecer a realidade existencial do outro, pois a negação deste, implica na imposição narcísica dos seus desejos.

[4] Ob cit. p.141.

[5] Conceito conforme Emmanuel Levinas.

[6] LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2008. p.12

[7] Op.cit. p.13.

[8] BECKER, Ernest. A Negação da Morte: uma abordagem psicológica sobre a finitude humana. Record: São Paulo, 2007. p.149

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