Psicologia

Saúde mental e Construtivismo

Segundo alguns especialistas a perspectiva construtivista pode auxiliar na construção da representação social acerca dos processos de saúde e doença. Outros, ainda conseguem ver um paralelo entre esta perspectiva e a proposta teórica de Canguilhem (2009) no que diz respeito ao normal e patológico.

Entendo que, para abrir a questão, é fundamentalmente importante fazer uma pergunta básica: o que é o construtivismo? Segundo Becker, construtivismo significa:

a ideia de que nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos, pensamento.[1]

E ainda, numa perspectiva da psicologia social, o construtivismo é a forma de enfocar o sujeito “como produto e produtor da realidade social”.

Há outra questão presente na primeira parte do enunciado que requer um esclarecimento: representação social. Assim, “as representações sociais são formas de conhecimento prático – o saber do senso comum – que têm por função estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientarem-se em seu mundo social e material e possibilitar, desta forma a comunicação entre os membros de um mesmo grupo”.

Desta forma, a contribuição que o construtivismo presta no auxílio da construção da representação social acerca dos processos de saúde e doença é fazer um convite para o indivíduo e o seu contexto social. Assim, o conceito de doença e saúde, dar-se-á, fundamentalmente, a partir do contexto em que o sujeito está situado, e desta forma, se relativiza, sobretudo, o contexto de doença. E esta chamada só faz sentido quando ocorre por meio de uma ação interdisciplinar, intradisciplinar, mas, especialmente, transdisciplinar. Isto significa dizer que é preciso estabelecer forças para que todas as instituições e pessoas envolvidas no processo da saúde, veja o sujeito como sujeito situado num contexto histórico e social, e que sua relação com a saúde e a doença, seja os profissionais, deve contemplar estes aspectos.

Pois, só assim, se poderá disciplinar, com menos equívocos, o conceito de doença e saúde, e, portanto, de normal e patológico. Pois, em certa medida, o adoecimento, neste sentido, a saúde, é uma construção social. Para se ter uma ideia, segundo o que assinala Serpa Jr[2], tem havido um processo de patologização do normal, quando analise a evolução da descrição do “adoecimento”:

Há cerca de dez anos tivemos a publicação da última edição dos dois principais sistemas classificatórios usados internacionalmente em psiquiatria e saúde mental, a CID-10 (1993) e o DSM-IV (1994). Uma tendência se delineava nestas novas edições dos dois principais sistemas classificatórios em âmbito internacional: a expansão do número de categorias diagnósticas incluídas em cada uma delas. A CID-10 incluía 100 categorias contra 30 na CID-9 (1978), enquanto o DSM-IV incluía 297, contra 292 no DSM-III-R (1987), 265 no DSM-III (1980) e – o maior salto – 180 na DSM-II (1968). E o que pudemos notar, a medida em que aquelas novas edições entraram em uso, foi que esta explosão de diagnósticos se fez às expensas de um processo de patologização do normal.

Esta evolução no aumento da discrição do que seja doença, vem determinando, em ação contrária, o que seja saúde, e, desta forma, o que é normal e o que patológico. A contribuição de Canguilhem é importante pois faz refletir exatamente sobre uma pergunta fundamental, para se questionar este processo que ai está: o que normal e o que patológico? Serpa . Faz uma brilhante incursão ao assunto, a partir de Canguilhem, e reflete sobre a questão:

É somente através do ponto de vista individual que se pode avaliar se uma norma de vida é superior à outra. Se considerarmos que enquanto há vida há normatividade, logo a vida é normal. Mas uma norma será considerada superior à outra quando aquela comporta o que esta permite e o que esta não permite. Sendo assim, o patológico não é o anormal, mas o normal de uma normatividade inferior. Isto é, regido por uma norma que não tolera desvios das suas condições de validade e também não consegue se transformar em outra norma. O doente, enquanto vive, está normalizado por uma norma conservadora, que se repete idêntica a si mesma, quaisquer que sejam as circunstâncias. O doente é aquele ser que perdeu a capacidade normativa. Uma conseqüência deste viés individual na delimitação da fronteira entre o normal e o patológico é que a doença também é individualizada. O que interessa primariamente ao clínico é o indivíduo doente muito mais do que a doença.

Assim, o paralelo que se estabelece é a inserção do indivíduo no seu contexto social, onde de um lado o indivíduo é produto e produtor da realidade social, e, do outro lado, entre o normal e o patológico, a doença é individualizante. Não se nega a realidade da doença e do adoecimento, mas, até nisto, em certa medida, o contexto social do doente deve ser considerado, para então, se fazer uma caracterização do que seja normal e do que seja patológico.

[1] Becker, Fernando. Série Ideias n. 20. São Paulo: FDE, 1994: 87 a 93. Disponível em < http://www.crmariocovas.sp.gov.br/dea_a.php?t=011. Acesso 16/04/08.

[2] Serpa Jr. , Octavio Domont de.  Indivíduo, organismo e doença: a atualidade de “o normal e o patológico” de Georges Canguilhem. Disponível em < http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/psicologia/Octavio.html> Acesso 16/04/08

Você não pode copiar o conteúdo desta página