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Morrer: O gozo da vida

Olhando sob a perspectiva do que as coisas, os eventos, as manifestações culturais, as crenças significam para cada sujeito, o tema morte, especialmente ela, dentre todos os temas da vida humana, deve ser colocado na mão de cada um.

Morrer é o nosso último ato culposo: fazemos as pessoas que nos amam se sentirem sós, as fazemos chorar. Mas, sobre o ponto de vista ontológico, para muitos, e eu creio assim, a morte não é o fim, é apenas o começo. Tendo a morte como começo, viver é um espetáculo, e morrer são os aplausos.

A questão é que a nossa estrutura, na grande maioria das culturas, as nossas buscas intermináveis por uma juventude corporal eterna, esquecem que viver é muito mais que corpo; viver, por exemplo, é beijar, como tu na ausência do corpo, na vida que está em ti, podes receber o beijo e regozijar com ele, aliás, regozijar é gozar duas vezes… Existe coisa melhor que isto na vida ausente do corpo? Assim, se gozar é uma pequena morte, como pensa os franceses, tu tocas a quem beijas na ausência do teu corpo, e assim, a vida que vives quando olhas com a alma, morres para além do corpo.

Se um dia, quando quem tu amas morrer, pode até chorar, mas, por tudo que te faz feliz, não esqueça de sorrir, porque quem é amado, morrer é lucro, pois a vida que se viveu, viveu para além da morte. A morte não é um abismo, é uma ponte.

Então, como eu disse, a morte, é um tema que deve colocado na mão de cada um. É como diz santo Agostinho:

Et sensi, expertus sum non esse mirum, quad palato no sano poena est et pani, qui sano suavis est, et oculis aegris odiosa lux, quae puris amabilis: Senti e experimentei não ser para admirar que o pão, tão saboroso ao paladar saudável, seja enjoativo ao paladar enfermo, e que a luz, amável aos olhos límpidos, seja odiosa aos olhos doentes”. (Santo Agostinho. Confissões. Nova Cultura: São Paulo, 1996. p.31. Pensadores.).

Para muitos, a morte é comida enjoativa, para outras, é pão que tem sabor, pois, “se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto[1]. Para viver tem que morrer, e morrendo se vive. No diálogo de Fileto e Teófilo, de Gottfried Wilhelm Leibniz, em Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano[2], existe uma máxima interessante: “é impossível que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo”. Pensar na vida sem pensar na morte é tentar viver a vida como se ela fosse sem ser. A vida é porque se representa na morte. A morte é o lado oculto da vida. Arthur Schopenhauer diz que os opostos elucida “[3].

Assim, a única forma de elucidar a vida é pela morte, portanto, o sentido da vida, só será elucidado, se em vida, se atribuir sentido para a morte. E, para desespero de muitos, o sentido da morte é a vida. Só de posse deste sentido, acredito assim, podemos atribuir liberdade à razão, e como diz Nietzsche: “quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho…[4]. Andarilho é a proposta da vida! Assim, viver é ter coragem de se expor, de dormir aqui, acordar ali, ir em frente. Viver é pôr a razão em liberdade. Falando do jeito de ser do andarilho, Nietzsche diz:

Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isto não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade.[5]

Há maior transitoriedade que o ato de viver? Mas, a transitoriedade da vida é perpassada no ato de morrer, assim, morrer é transcender o ato de está vivo, portanto, morrer é viver. Quem tem medo de morrer, certamente terá de viver, pois a morte é simétrica na negação da vida. Portanto, não negue a vida, apenas viva com intensidade.

Agora quem vos beija sou eu.


[1] João 12:23,24

[2] Nova Cultural: São Paulo, 2000, p.73. Coleção os pensadores.

[3] SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. IN: Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1999, p.57.

[4] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Pensadores. Nova Cultural: São Paulo, 2000.p.99.

[5] idem.

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