Reflexões Sociais

Estou chegando: a ética do celular

Não há dúvidas que as novas formas de socialização patrocinadas, sobretudo, pelas mídias digitais, têm exercido uma forte influência na forma de ser do homem hodierno. Novas linguagens surgem, novas formas de se comportar, novos espaços.

Hoje, um dos termos que mais expressivos é cibernético, isto porque, este termo tem dado origem a outros termos. Por exemplo: cibercultura, ciberpunk, ciberdemocracia, cibercidadania, ciberativismo, cibercidades, etc.

Como sabemos a “cibernética é uma teoria dos sistemas de controle baseada na comunicação entre o sistema e o meio, assim como no interior do sistema e na retroalimentação das funções do sistema pelo ambiente”. Esta teoria “foi criada por Norbert Wiener e é parte da teoria geral dos sistemas, esta criada por Von Bertalanfy”. Segundo os especialistas em teoria de sistema, “a principal contribuição da cibernética foi o seu modelo de causalidade, através do conceito de retroalimentação (o feedback), que se opunha aos modelos de causalidades lineares e mecanicistas que a grande maioria das ciências usavam”. Desta forma, acredita-se que “para cibernética, os sistemas abertos apresentam um mecanismo de regulação, na interação com seu ambiente, que mudam o seu funcionamento”. Diante disto, temos uma premissa fundamental no âmbito da teoria dos sistemas: “para entendermos um sistema, temos que analisá-lo na interação com o seu ambiente”.

Atualmente, destes termos que tem relação com cibernético, ciberespaço é um dos mais freqüentes. Em 1984, no livro Neuromancer, do escritor William Gibson, aparece o termo ciberespaço (cibernético + espaço). Em que consiste o termo ciberespaço? Em linhas gerais “consiste no espaço criado através das comunicações mediadas pelas tecnologias digitais, na transformação do PC para o CC (computador conectado)”. Um dos maiores especialistas em ciberespaço, Pierrey Levy, assim define: “espaço metafórico, espaço de comunicação, aberto pela interconexão mundial dos computadores”.

O que o tema (estou chegando: a ética do celular) deste texto tem haver com o que foi dito até agora? Tudo! Estamos vivendo em um mundo interligado pelos tentáculos da comunicação midiática: os celulares. São estes tentáculos que se movem no ciberespaço, formando um cibercultura especialmente particular: pessoas em movimento, quer da perspectiva de quem chama como de quem é chamada, com possibilidade de num revezamento simultâneo da mobilidade. Sabemos da importância dos celulares, e hoje constituem-se elementos fundamentais dentro do conceito cibercultura. Temos hoje uma cultura de celulares: da paranoia gerada pela necessidade de ter um novo celular a cada mês até as mentiras em deslocamento. Desta forma, o conceito de cibercultura, neste contexto, abrange as práticas culturais (hábitos, costumes, valores etc.) relacionadas ao ciberespaço. Assim, celulares no ciberespaço tem estabelecido, entre outros, o hábito do ESTOU CHEGANDO, sem necessariamente, ser verdade. Daí, porque o tema deste texto: estou chegando: a ética dos celulares.

Quem anda de ônibus já deve ter ouvido alguém, ao celular, dizer: “estou chegando”. E o pior fica quando a pessoa diz onde está no momento, e não é verdade! Todos os dias, ao ir para a faculdade, pegava o ônibus via Av. Paralela. Muitas vezes já ouvi pessoas afirmarem, pedindo para quem está do outro lado ter paciência, pois estava chegando, e completa dizendo: “Já estou na rótula do aeroporto”, quando na verdade, a pessoa está em frente as Faculdades Jorge Amado.

Pergunto: tal comportamento implica uma questão ética? Creio que sim! Pois, o que temos é um processo de relação, e como tal, envolve duas pessoas. E assim sendo se parte do pressuposto que está havendo uma relação, um diálogo; e este por sua característica, baseado na confiança. Desta forma, o a pessoa recebe a informação da posição do outro, ela se programa dentro da análise de tempo e espaço diante da informação recebida. Ora, se a pessoa diz: estou chegando, quem ouviu entende exatamente isto. Quem recebe a informação se programa para o encontro a partir da informação recebido, e esta não sendo verdade, quem passa a informa, desta forma, quebra o princípio da retroalimentação, e o feedback é falso. Havendo a quebra, e mantendo-se a retroalimentação, quem espera, espera fora de uma relação ambiental, enquanto processo contingencial. E como sabemos, a força contingencial que mantém o ciclo relacional da construção social é o processo dialógico!

Dialogar, como processo de construção social, não importando qual a condição mediadora, deve ser pautada em situar o outro no tempo e no espaço. Se uma relação social, que tem a sua construção estabelecida pelo processo dialógico, desconsidera o aspecto de que o outro precisa ser situado, e assim respeitado, enquanto sujeito que se desloca no tempo e no espaço, esta sociedade além de fragmentar, liquidifica as relações. Estamos, quiçá, nos projetando a aniquilação do outro enquanto sujeito concreto, e com isto, alimentando-nos do liquido verde gosmento polimórfico fluído do não-ser: “só um minuto, estou chegando…” Quando?

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