Reflexões Existenciais

A morte e o morrer: Uma metáfora futebolística

Sexta-feira, dia 02 de julho de 2010, o tão sonhado hexa campeonato da seleção brasileira de futebol foi pelo ralo…a campanha publicitária do hepta vai ter que ser refeita!

Pelos quatro cantos do país o que se viu foi um dissolução total, choro e revolta com jogadores, treinador e comissão técnica. A crítica, dita especializada não se entendia (no dia do jogo, por causa do malogro); e nem se entende nunca…grave um jogo de futebol, e depois veja os comentários em diferentes canais: uma tragédia. Mas tem uma explicação: o nível de vaidade e romantismo, em detrimento ao profissionalismo, beira a perversão. Já observaram como o Dr. Hannibal Lecter pronúncia o nome da detetive Clarice Starling? Pois é! Filipe Melo, por exemplo, já erra, 5 minutos antes do final da partida, um corpo sobre a pedra empestado por um casulo de uma “borboleta tropical”. Barboleta tropical: Brasil, brasileiro… Já tivemos vários culpados: lembram, por exemplo, do Roberto Carlos ( o jogador do chute forte) de “caso com o meião”? Perdoe-me, não lembro que copa foi! Sério!

Então: vamos aos fatos! A França e Itália já tinham ido embora; sábado, dia 03 de julho de 2010, foi a vez da Argentina… o que teve de brasileiros felizes por isto; sem falar na França…ai, ai! Agora, por outro lado, é hora de secar a Alemanha: ela não pode ser campeã, senão ela chega ao tetra, e fica muito próxima do Brasil…este é o nosso pensamento, permitam-me falar “nós”.  Pois se nós não pensássemos assim, como estaria eu escrevendo esta baboseira agora? Nós pensamos assim! É o egocentrismo antropofágico de uma sociedade desigual. São reflexo de um inconsciente coletivo que vive, permanentemente, se projetando em processos sociais de sucesso. O sucesso da seleção brasileira representaria, como já representou outras cinco vezes, o nosso sucesso pessoal. Não digo que isto não tenha o seu lado legítimo, pois, tem aí, no seu bojo, uma grande rede social válida. Mas, por outro lado, é notório, que há neste processo um deslocamento de uma neurose social aguda, apresentado fortes traços para uma conversão perversa.

Dizem que futebol é uma paixão nacional, mas esqueceram que para os holandeses também; assim como é para os alemães, espanhóis e paraguaios. As vezes os especialistas em fazer comentários, comentam uma partida de futebol, esquecendo que do outro lado tem 11 jogadores com o mesmo objetivo: vencer! Bem, até que na fase de ponta o empate pode classificar; nas na fase do mata-mata, alguém tem que morre. Nesta disputa alguém terá que perder, senão no tempo normal, na prorrogação ou no nos pênaltis…mas, alguém tem que perder…Viram como o “El Loco” Abreu” bateu o último pênalti contra Gana? É assim na vida…As vezes, dependendo qual o lado interessado (neste caso os ganeses), tem-se esperança que o “goleiro” faça a defesa…mas, vem “El Loco” é faz uma coisa destas…

E os 7×1? Não vou nem falar! Deixa quieto.

Eis a grande questão: estamos, a todo custo, tenta excluir a morte da nossa vida! No campeonato da vida, ninguém que perder… Ninguém quer morrer… Não falamos da morte, temos medo do tema, é um assunto velado… Não falamos do assunto com as nossas crianças; para elas, as pessoas queridas não morreram, apenas foram fazer “uma grande viagem”… Uma viagem sem volta. As invenções tecnológicas, em todos os sentidos, tentam, a todo custo, vencer a morte, e assim, já se congela corpos, na esperança que um dia teremos uma alternativa para o morre.

2014 vem aí, e até lá milhares de pessoas que choram a desclassificação contra a Holanda, já não estarão mais aqui…, mesmo que tenha sido em impedimento ou de mão…o juiz validou.  Outros poderão vibrar com o hexa, mas, é possível também, que mais uma vez precisaram saber elaborar o luto.

Segundo Nobert Elias, “o problema social da morte é especialmente difícil de resolver porque os vivos acham difícil identificar-se com os moribundos” (ELIAS, 2001:9[1]). Sabe-se, portanto, que o dilema que envolve os vivos não é morte (pois é um conceito descritivo), a questão é o morrer, pois é uma realidade na qual o ser humano está conscientemente inserido, e da qual existencialmente faz parte, e inevitavelmente terá que enfrentá-la. Para conviver com esta realidade, o homem, por meio das mais diversas formas de manifestações culturais, significados e sentidos, representa a morte socialmente. A morte está na cultura, como o morrer está para o homem. O futebol é uma destas representações! Queremos sempre ser campeões! Mas o hexa não veio… Assim é a vida: ela existe em função da morte e vice-versa! São faces de uma mesma moeda! Só estão nos esquecendo de avisar isto, e muitos de nós estamos “vivendo” como se a vida fosse uma partida de futebol de um time só. Não devemos esquecer que do outro lado tem “alguém” querendo ganhar.

Foi gol da morte, morrer continua sendo o maior o artilheiro da equipe, dificilmente será superado um dia.


[1] ELIAS, Nobert. A solidão dos Moribundos – seguido de “Envelhecer e morrer”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

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